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Natacha Martins: Fazer a diferença

 

Natacha Martins de 18 anos, está no último ano do ensino secundário, a estudar design gráfico. A psoríase está presente na sua vida desde os 4 anos de idade. A sua história retrata a realidade de muitos jovens que por vezes são esquecidos pela própria sociedade e sistema educacional. Como embaixadora da PsoHappy, Natacha narra de uma forma autêntica e corajosa alguns episódios que vivenciou com a psoríase, e como também aprendeu a superar algumas barreiras, tornando-a mais confiante na sua própria pele.

 

 

A psoríase e a escola

Apesar de ter psoríase desde os 4 anos de idade, o início da minha vida escolar foi sempre muito calmo, sem olhares atentos, como se fosse uma criança exatamente igual às outras.

Quando entrei no 3º Ano a minha vida mudou. Pela primeira vez senti que em especial outras crianças olhavam primeiro para a minha condição. Experienciei inúmeras vezes reações desconcertantes por parte dos meus colegas de turma, tinham repulsa de mim. Nunca queriam estar perto de mim ou dar-me a mão quando nos agrupavam em pares nas visitas de estudo pensando que o que tinha nos braços e palmas das minhas mãos era contagioso.

Lembro-me que um dia após tantas vezes ser alvo de troça, acabei por fugir dos meus colegas até conseguir encontrar um funcionário da escola que me levou até uma sala, onde acabei por chorar, talvez por medo ou por toda a ansiedade que sentia na altura. A professora responsável pela minha turma acabou por descobrir o sucedido e repreendeu os meus colegas.

Quando já frequentava o 5º Ano, a minha mãe estava à minha espera na escola para irmos para casa, como era hábito juntamente com outros pais, e repentinamente, o pai de uma colega minha, abordou a minha mãe, criticando-a severamente, e dizendo como é que era possível deixar uma filha ir à escola com “aquelas coisas” nas mãos e no cabelo. Foi um grande choque para a minha mãe presenciar este tipo de comportamento, sobretudo porque é um profundo desrespeito para todos os pais e filhos que lidam com esta condição. Felizmente, outros pais e por coincidência um dos meus professores assistiram ao sucedido e apoiaram de imediato a minha mãe.

Estas situações acabaram por me deixar um pouco alienada em termos sociais, acabando por passar grande parte do tempo com os professores ou funcionários da escola em vez de me divertir (ou pelo menos tentar) no recreio com os meus colegas de turma. Não sabia o que dizer ou como confrontar os meus colegas quando troçavam de mim. Sentia-me sozinha e isso fazia com que me refugiasse cada vez mais na minha timidez.

Com a puberdade, e sobretudo numa nova escola, e com novos colegas, acabam sempre por acontecer situações menos agradáveis. Aprendi a lidar melhor com estas situações. Mas é impossível ficarmos indiferentes quando as pessoas nos tentam magoar e sobretudo quando falam com um total desconhecimento de causa, não tendo consciência do impacto ou da mágoa que causam nas pessoas.

Cada vez que me apercebo que mesmo pessoas desconhecidas olham para mim com um olhar de desconfiança e por vezes até de nojo, sinto um misto de tristeza e irritação. Apesar de já haver muita informação publicada sobre a psoríase, as pessoas continuam a julgar e a discriminar pela parte estética.

Houve um dia que uma das minhas professoras conversou comigo e sugeriu-me a ideia de dar uma apresentação sobre a psoríase para os meus colegas. Por coincidência aconteceu na semana do Dia Mundial da Psoríase. Tentei procurar o máximo de informação, e após partilhar a minha experiência e falar abertamente sobre a psoríase, senti que os meus colegas também aceitavam e encaravam a psoríase de uma forma mais positiva.

Por vezes penso que se a minha pele estivesse completamente livre da psoríase, a minha vida poderia ser um pouco mais fácil. A constante preocupação tanto a nível físico como psicológico, acaba por nos limitar um pouco no dia-a-dia e lembro-me que por vezes nem conseguia ir às aulas de educação física devido às placas de psoríase e à dor provocada pelas mesmas.

Sempre fiz o possível para que a minha rotina fosse como a de qualquer adolescente, e com o apoio incondicional da minha família e amigos, aprendi a aceitar a psoríase na minha vida.

 

Fazer a diferença

Conheci a PsoHappy graças à minha mãe e após responder aos questionários, senti que esta seria a oportunidade perfeita para partilhar a minha história.

Apesar de ser ainda muita nova, sempre tive vontade em ajudar mais pessoas a conseguir ultrapassar e a superar as barreiras que a psoríase impõe nas suas vidas. Nem toda a gente sabe lidar com a psoríase, e com o meu testemunho quero mostrar que há uma luz ao fundo do túnel e que é possível ser feliz.

Mesmo tendo consciência que esta doença apresenta desafios por vezes incontornáveis no nosso dia-a-dia, se não fizermos um esforço em aceitá-la, como é que outros a poderão aceitar?

Quando nos sentimos bem e felizes, a psoríase também sente, e todo um novo caminho acaba por se abrir nas nossa vidas.

 

P.S. Sejam Felizes!

 

 

A PsoHappy explora de que forma a psoríase afecta a felicidade e o bem-estar. Faça a sua voz ser ouvida participando nas nossas pesquisas sobre os diferentes aspectos de viver com psoríase.

 

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