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Cara Psoríase: carta à psoríase

 

Manuel Domingos convive há mais de 15 anos com a psoríase. Escolheu a neuropsicologia como profissão, e consciente do impacto da psoríase na saúde mental, decidiu pela primeira vez partilhar em primeira mão com a PsoHappy a carta que decidiu redigir à “sua” psoríase.

 

Cara Psoríase,

Ao fim de 15 anos de coexistência não-pacífica resolvi escrever umas linhas sobre a nossa odisseia. Vou contar ao mundo como te atreveste a instalar-te em mim, permanecendo indesejada durante todo este tempo.

Corria o ano de 2003, já perto do verão, quando reparei que a minha pele começou a ficar salpicada com pontos vermelhos espalhados um pouco por todo o lado. Só mesmo a cabeça foi poupada. Assustei-me um pouco e, temendo uma doença de origem hematológica, resolvi fazer um hemograma detalhado. Felizmente os resultados nada revelaram de anormal. Pensei então que o melhor era ir ter com um alergologista e um dermatologista. O primeiro observou, olhou, com ar desconfiado, e disse-me que tinha que fazer vários testes. Resultado, mais uma vez…nada.
Lá rumei, então, ao consultório do dermatologista que mal falou comigo, sempre com as mãos nos bolsos da bata, lá me foi dizendo que me preparasse porque era uma psoríase, doença autoimune, sem cura, mas com tratamento e que, à partida, só se poderia alastrar, não era contagiosa e não traria outras consequências. Passou-me uma receita com a tradicional pomada e gel de banho. Sem mais demoras e quando eu já estava de saída do consultório, disse:” Vá para a praia e apanhe sol, mas não muito”. Tinha plena consciência que a partir de então a minha vida ia ficar bastante afetada em aspetos sociais e relacionais.

Assim que cheguei a casa fui ler sobre a doença e ao fim do primeiro parágrafo do texto já o pânico se começava a instalar. É que para além dos incómodos cutâneos, esta doença também podia afetar as articulações, causar reumatismo, patologia cardíaca e até, segundos certos autores, neoplasias. Enfim, um susto.

Acabei por ir a vários dermatologistas, esperando que a coisa pudesse correr melhor. Às tantas, recomendaram-me fototerapia. Aguentei um mês. Como as melhoras eram nulas, achei por bem regressar às pomadas. De facto, as placas não avançavam muito, mas também não diminuíam, o que fez com que também deixasse de usar as pomadas.

Lembro-me que um certo verão me enchi de coragem e fui até a uma praia onde para além das gaivotas e dos caranguejos, só lá estava eu e mais meia dúzia de pessoas. Passados alguns dias…milagre. Tinha-me desaparecido tudo. Pensei que havia algo de mágico naquela praia. Até hoje estou para saber. De facto, durante 3 meses a psoríase fora de férias. Mas como as férias também acabam, a psoríase regressou em força. A auto-estima piorou, deixei de vestir calções e camisolas de manga curta. Tinha-se instalado uma vergonha crónica que ainda hoje persiste.

Há poucos dias fui a outra dermatologista que, pela primeira vez, teve uma atitude louvável já que olhou para a pessoa e não apenas para a doença. Sossegou-me ao referir que, atualmente, a psoríase era ligeira. A única coisa boa foi o facto de nunca ter tido complicações musculares, artropáticas, reumáticas, cardíacas e muito menos neoplásicas.

Acho que desta vez vou levando comigo a única senhora que não sai de ao pé de mim; a “querida” psoríase, companheira até à eternidade a não ser que os senhores investigadores encontrem alguma forma de te mandar para o inferno.

E, já está.
Um abraço do Manuel Domingos

 

 

A PsoHappy explora de que forma a psoríase afecta a felicidade e o bem-estar. Faça a sua voz ser ouvida participando nas nossas pesquisas sobre os diferentes aspectos de viver com psoríase.

 

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